quinta-feira, 31 de julho de 2008

A distancia me morde no calcanhar de aquiles
Eu a deixei em minha sala de estar
Espalhei comida
Pus uma bacia cheia dagua

E deixei ela com aqueles olhos percrustadores
mas ela insiste em morder, morder, morder

quarta-feira, 30 de julho de 2008

As coisas deveriam ser , simplesmente.
MAs aí entra um emaranhado de receios, angústias, nostalgias vãs, pequenos cadeados enferrujados que cerram, ofuscam e trancafiam.
Se queres beber aquela bebida azul, se gostas do cheiro, pois beba!
Mas a bebida é azul, meu organismo estranhará , é temoroso, é é é é.
Assim as coisas passam ser outra coisa, um quadro abstrato com matizes de "é", de acanhados tons de " deve ser", de lívidas aquarelas de "foi e quem sabe novamente será".
E continuamos desfilando nessa escura galeria de quase-realizações, de passados empoleirados com doentia veemência: portas trancadas com todos os trincos possíveis.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

coisas?

Acordar cedo, vestir-se, alimentar-se e vamos lá, seguir os trilhos...
Hoje acordei depois do meio dia, tomei um café frio e pus qualquer roupa amarrotada tal qual meu cabelo desgrenhado e fui ribanceira abaixo.
acho que deveria ter nascido outro bicho.

domingo, 27 de julho de 2008

Coisas estrangeiras

Depois de alguns mls de cevada
um novo sabor de cevada
e de prédios pesados de significado
engolindo-me
sorvo mais um trago
de novidade
e me largo ao novo acaso

fazem trinta e dois graus
o tempo lançou o equador acima
e preciso de um novo pensamento dourado
ou qualquer outro matiz
estou agora calado
contabilizando la vita
e o resultado é que meu caixa está zerado
quando chego a una nueva estaçao
sou tragado
pelo rubro tilintar da nova parada.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Coisas de Cinema

Um filme de colhões


Um dos grandes filmes nacionais dos últimos tempos entrou em cartaz no fim da semana passada, de forma corajosa, seria um filme de “colhões”, como em algum momento do filme irão entender o porquê do termo, mas não precisa ir muito longe para sabermos que tem muito mesmo, principalmente quando entra nas salas nacionais junto com o forte Batman. O que iremos começar a pensar agora não é a grande doação que um cineasta de terceiro mundo tem de ter para realizar seu filme por longos tempos e ainda assim lançar no mesmo fim de semana contra um filme que entra com altíssimo orçamento, previsões de arrecadações astronômicas. Vamos falar de uma obra, que é prima e novamente repetindo: de “colhões”.
De tirar o fôlego as primeiras cenas numa forma intensa, nua e crua, marcam muito bem o que vem a ser “Nome Próprio”, filme de Murillo Salles, baseado nos livros “Máquina de Pinball” e “Vida de Gato”, ambos de Clarah Averbruck. O filme mostra a vida de uma jovem que tem o seu mundo e sua vida toda compartilhada com milhares de internautas através de seu blog, escritora de sentimentos fortes e intensos, vive a sua vida desse jeito, uma relação que não deu certo, tragada por uma traição. A partir daí, Camila, interpretada magnificamente por Leandra Leal. Tenta reconstruir sua vida. Chutada pelo namorado, começa a surgir a idéia de escrever um livro em meio à sua vida conturbada devido ao fim de seu relacionamento e por ser uma pessoa intensa, deixando exposta para quem quiser ver na tela do computador. É um filme de conflitos, em uma metrópole onde cada vez mais com o avanço tecnológico, as pessoas se distanciam, são desprovidas de um sentimento intenso, de cumplicidade entre as outras. De forte carga psicológica, o filme mostra uma personagem perdida em seu mundo, que ela própria construiu, intensamente, chegando a ser autodestrutiva em alguns momentos. Camila sabe o que deseja, mas a procura é dolorosa.
Este é um grande exemplo de drama psicológico nos dias de hoje. A Camila existe em milhares de pessoas, que ali estão solitárias numa metrópole, a procura de algo ou alguém, não importa, sempre será uma eterna procura nos dias de hoje, onde a intensidade é vista como anormalidade entre os seres, A cumplicidade que tanto Camila procura, não existe nas suas relações sexuais. As pessoas estão morrendo por dentro de uma forma estúpida, anulando o que tem de mais belo em meio à sujeira metropolitana.
Um tapa na cara da normalidade que existe hoje em dia, do puritanismo nas relações, no convívio. “Nome Próprio” tem cenas fortemente belas, onde cada plano se vê intensidade, onde o espectador entra nos lugares em que Camila está presente, ela nos conduz a sua vida, em seu apartamento vazio. De uma fotografia simples, sem rodeios, diretamente mostrando o que é o universo daquela jovem, onde o limpo é a sua sujeira mais dolorosa.
Adentramos a fundo na sua vodca vagabunda e suas “baladas” alternativas, tem todo o clima de procura, ao mesmo tempo de uma solidão enorme marcada em suas teclas, onde os caracteres invadem os quadros do vazio lugar de uma vida intensa, deixando completamente exposta, de frente para a tela, para quem quiser ver a jovem da grande cidade, como se fosse “ta aí, minha vida está para quem quiser ver na grande tela”.
Muito tem a se pensar sobre este filme, repleto de riquezas em seus personagens, com forte tom psicológico, nos dá um choque ao depararmos com cada um daqueles seres que vivem na cidade onde tudo definitivamente acontece, a profundidade de uma cidade e suas pessoas, como elas se relacionam durante seus dias, como é cruel esse avanço que tende a ser pior em breve. Um filme de colhões, como a personagem, como o diretor, a equipe e como todos que encararem esta obra de forma intensa, de entrega total e ver que mesmo em um fim de semana onde o cavaleiro das trevas reaparece contra o seu doentio arquiinimigo, “Nome Próprio” teve definitivamente começado a ser escrito com letra maiúscula.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Samba Para Vinícius

Poeta
Meu poeta camarada
Poeta da pesada
Do pagode e do perdão
Perdoa essa canção improvisada
Em tua inspiração
De todo o coração
Da moça e do violão
Do fundo

Poeta
Poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo
Fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer
A vida é pra levar
Vininha, velho, saravá

(Composição: Toquinho - Chico Buarque)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Anima Mundi

Estamos chegando à reta final do festival Anima Mundi , que ocorre em diversos espaços da cidade do Rio de Janeiro até o dia dia 20 de julho, e ontem ,dentre os ínumeros curtas que assisti graças às minhas férias, tive o prazer de ver uma belíssima obra do japonês Kanio Kato intitulada La Maison en petits cubes (2008/Robot Communications Inc), que ilustra a história de um senhor chamado Vovô isolado em sua casa cheia de lembranças, retratos de sua juventude, objetos impregnados de carga emotiva e solidão. O cenário é um mundo que foi tomado pelas águas, onde os humanos coexistem entre barcos e gaivotas.
Certa manhã, nosso protagonista percebe que as águas invadiram seu pequeno refúgio, obrigando-o a construir uma nova casa em cima da atual casa em submersão. Perto do término de seu novo lar, ele deixa cair seu companheiro inseparável - um simpático cachimbo - no "porão" alagado de sua antiga casa, tendo que então mergulhar para buscá-lo. A partir daí se sucede a parte mais bela e profunda do curta: No momento que Vovô mergulha no porão para pegar seu cachimbo, o espectador percebe que não se trata de um porão e sim de uma terceira casa que houvera sido inundada. Ele então, ao pegar o cachimbo, começa a lembrar dos momentos passados. Enternecido por tais lembranças, ele então abre um novo alçapão que desvenda uma quarta casa. E assim este vai abrindo alçapões e lembrando de cada estágio de sua vida - o dia que sua filha chegou com o futuro noivo, a noite em que ele chegou com sua esposa ao novo lar - e finalmente este chega ao térreo e lhe vêm uma seqüência intensa de sua infância.
O Curta termina com Vovô em sua casa recém-construída preparando um jantar para duas pessoas - que fica a cargo de quem está assistindo decidir, em seu final pessoal, a quem (ou a o quê) nosso protagonista atribuiu o lugar vazio em sua mesa de jantar.
Para quem ainda não viu, há chance! La Maison en petits cubes será exibido no Odeon Br , sexta-feira dia 18 de julho às 13:30 ou na edição de São Paulo do Anima Mundi.


Para mais informaçãoes sobre o festival clique aqui.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Decifra-me ou te devoro

Com olhos aguçados de vida,
o vento vociferou em rajada
o fúlgido grito de sol e o tênue sussurar da lua
o íntimo tato de árvores, chão e seus ressoares constritos
o ronronar do metafísico silêncio suspenso em tudo
os flúidos dizeres de água em desaguares e marés
o duro expressar das rochas, minérios e cidades

o tenso refulgir de coração palpitou escarlete voz

o dizer além da fala:
o concerto de mãos e manhãs
o diálogo, o monólogo
dos olhos e suas incendiárias expressões
dos poros e suas palavras eriçadas
da boca e sua muda contemplação

Ouviu?
O tempo devora o que não se decifra.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Resumo das coisas

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

(Paulo Leminski)

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Pois a vida é que nem Haicai.

Faço o seu.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Padecemos de falta de coragem
Quando frente à fresta luminosa da porta, somos sondados por aquela umidade de luz, musgo, ares - precipícios macios; e com as mãos trêmulas damos mais um volta na chave- trancando mais - com patológico temor do inédito.
Depois abrimos as janelas e vemos o vapor longínquo de lá.
assim apelidamos parcamente o suntuoso horizonte: "lá"
pegamos lânguidamente uma poltrona a tira-colo e olhamos, tentando transpor o trinco da janela e inutilmente tocar.
A partir daí nos apercebemos (ou não: porque temos implícita a patologia de não-saber) que padecemos também da falta de toque.
Nossas faces então franzem-se em uma torpeza dura de concreto.
e daí nossa matéria, originalmente maleável, enrijece.
Padecemos de desumanização. E então, na penumbra de nós, somos engolidos por nós, viramos mais um móvel amorfo e mortiço de nossas sombrias dependências.
Viramos um quarto-sala sem janelas nem porta,com espessas paredes e impregnado de rarefeito ar taxidérmico.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Íamos para uma das muitas reuniões semanais, encontros com barrinhas de cereais insossas e discursos intermináveis sobre produtividade - aquela inútil produtividade que nos traz rugas.
O dia era visto apesar dos prédios, o dia era engolido pelas arestas aflitas de prédios com um acanhamento perpendicular.

- Olha que lindo...

Eu, intrigado com o comentário, perguntei:

- Lindo?

- Sim, o novo Audi.

E lá estava aquele monte de metal irrequieto, suspenso pela borracha e com círculos olímpicos em seu brazão frontal.

- É, lindo. - respondi com certo alheamento, enquando mantinha um diálogo azul e silencioso com o céu, esquendo-me ali.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Na noite passada, há poucas léguas daqui, me deparei com alguns passantes que se convergiram em mim.
Perguntei ao poeta e ele me disse:

- Atire-se, tal qual súbito suicida.

Depois sondei o caixeiro viajante:

- Tome cuidado com certos caminhos, não se lance tal um adolecente às veredas.

Por fim, vi ali hesitante minha mãe na cozinha e suas tarefas automáticas:

- Qual é mesmo a cor de seus cabelos?

Adormeci. Depois de digerir as parcas horas matutinas, me despi desta noite e me guarneci de duro paletó, suavizado porém com provisões indispensáveis - punhados de poesia e um cantil de flúida prosa. Apesar de sua rigidez furta-cor e sisuda envergadura irresoluta, meu paletó jazia em mim com paradoxa calidez - dotada de uma doce combinaçãode canetas, música, céus claros, outonos e aquele inoxerável palpitar que podemos nomear de sentimento.

Fui trabalhar.