Um filme de colhõesUm dos grandes filmes nacionais dos últimos tempos entrou em cartaz no fim da semana passada, de forma corajosa, seria um filme de “colhões”, como em algum momento do filme irão entender o porquê do termo, mas não precisa ir muito longe para sabermos que tem muito mesmo, principalmente quando entra nas salas nacionais junto com o forte Batman. O que iremos começar a pensar agora não é a grande doação que um cineasta de terceiro mundo tem de ter para realizar seu filme por longos tempos e ainda assim lançar no mesmo fim de semana contra um filme que entra com altíssimo orçamento, previsões de arrecadações astronômicas. Vamos falar de uma obra, que é prima e novamente repetindo: de “colhões”.
De tirar o fôlego as primeiras cenas numa forma intensa, nua e crua, marcam muito bem o que vem a ser “Nome Próprio”, filme de Murillo Salles, baseado nos livros “Máquina de Pinball” e “Vida de Gato”, ambos de Clarah Averbruck. O filme mostra a vida de uma jovem que tem o seu mundo e sua vida toda compartilhada com milhares de internautas através de seu blog, escritora de sentimentos fortes e intensos, vive a sua vida desse jeito, uma relação que não deu certo, tragada por uma traição. A partir daí, Camila, interpretada magnificamente por Leandra Leal. Tenta reconstruir sua vida. Chutada pelo namorado, começa a surgir a idéia de escrever um livro em meio à sua vida conturbada devido ao fim de seu relacionamento e por ser uma pessoa intensa, deixando exposta para quem quiser ver na tela do computador. É um filme de conflitos, em uma metrópole onde cada vez mais com o avanço tecnológico, as pessoas se distanciam, são desprovidas de um sentimento intenso, de cumplicidade entre as outras. De forte carga psicológica, o filme mostra uma personagem perdida em seu mundo, que ela própria construiu, intensamente, chegando a ser autodestrutiva em alguns momentos. Camila sabe o que deseja, mas a procura é dolorosa.
Este é um grande exemplo de drama psicológico nos dias de hoje. A Camila existe em milhares de pessoas, que ali estão solitárias numa metrópole, a procura de algo ou alguém, não importa, sempre será uma eterna procura nos dias de hoje, onde a intensidade é vista como anormalidade entre os seres, A cumplicidade que tanto Camila procura, não existe nas suas relações sexuais. As pessoas estão morrendo por dentro de uma forma estúpida, anulando o que tem de mais belo em meio à sujeira metropolitana.
Um tapa na cara da normalidade que existe hoje em dia, do puritanismo nas relações, no convívio. “Nome Próprio” tem cenas fortemente belas, onde cada plano se vê intensidade, onde o espectador entra nos lugares em que Camila está presente, ela nos conduz a sua vida, em seu apartamento vazio. De uma fotografia simples, sem rodeios, diretamente mostrando o que é o universo daquela jovem, onde o limpo é a sua sujeira mais dolorosa.
Adentramos a fundo na sua vodca vagabunda e suas “baladas” alternativas, tem todo o clima de procura, ao mesmo tempo de uma solidão enorme marcada em suas teclas, onde os caracteres invadem os quadros do vazio lugar de uma vida intensa, deixando completamente exposta, de frente para a tela, para quem quiser ver a jovem da grande cidade, como se fosse “ta aí, minha vida está para quem quiser ver na grande tela”.
Muito tem a se pensar sobre este filme, repleto de riquezas em seus personagens, com forte tom psicológico, nos dá um choque ao depararmos com cada um daqueles seres que vivem na cidade onde tudo definitivamente acontece, a profundidade de uma cidade e suas pessoas, como elas se relacionam durante seus dias, como é cruel esse avanço que tende a ser pior em breve. Um filme de colhões, como a personagem, como o diretor, a equipe e como todos que encararem esta obra de forma intensa, de entrega total e ver que mesmo em um fim de semana onde o cavaleiro das trevas reaparece contra o seu doentio arquiinimigo, “Nome Próprio” teve definitivamente começado a ser escrito com letra maiúscula.